segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Veneza, o regresso

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Desta vez é bem mais fácil escrever enquanto a accão acontece. Estou sentado na igreja San Vidal, em Veneza. A orquestra local prepara-se para interpretar algumas obras de Vivaldi. Sim, tambem so conheco aquela da pizza.
O ambiente é, sem que me ocorra melhor adjectivo, inspirador. Muitos italianos, poucos turistas. Estamos em Janeiro.
Aqui e ali ouco Patrícios. Gosto sempre de ver alguém da Terra Prometida, sinto-me mais próximo de casa. Tento tropecar neles só para meter conversa.
A grande vantagem de repetir destinos é aliviar a pressão dos "must see". É a minha segunda passagem por Veneza e desta vez não trago mapa, lista ou máquina. Vou vagueando pelos canais, descobrindo pequenos restaurantes, seguindo a rua com melhor cor.
Dei com este concerto por puro acaso.
Veneza é uma cidade inacreditável! Quem é que se lembrou de fazer algo tão belo, frágil e complexo? E porque é que o fizeram? Ao contrário dos holandeses, os italianos nunca tiveram falta de espaco em terra. Mas ainda bem que algum doido avancou para o mar. Veneza tem que ser percorrida sem pressa de chegar. Cada vez gosto mais de Itália.
Também por acaso, ou quase, descobri um hotel perto da Piazzone Roma (estacão central dos autocarros e entrada da cidade) que é uma autentica pérola: Ca' dei Polo. Um pálacio com mais de 400 anos totalmente recuperado,  um dono simpatiquíssimo que fez o favor de esperar 2h por mim e os precos quase equiparados a um Ibis. Um achado numa cidade que arranca couro e cabelo a cada turista que aqui passa.
Sabem comer estes italianos. Que primor de cozinha, que requinte no vinho. Da primeira vez que aqui passei abusei da pizza e ignorei o que de melhor se faz, a pasta. Volto para casa com boa impressão desta vez. Pão por pão, continuo a preferir o dos turcos.
Esta não é certamente a melhor altura para visitar a cidade. Está frio, alguns canais invadem as ruas, San Marco comeca a ficar alagada. Por outro lado há menos turistas, o que torna a circulacao muito mais facil. Os precos baixam, o céu ainda assim está azul e o Carnaval dá cor à cidade.
Falando em turistas...quem foi o visionário que colocou uma câmara no iPad? Sou o unico a achar que andar com uma televisão debaixo do braco não é muito pratico? "Olha ali a basílica, puxa do cinescópio sff!". Não atinjo.
Mas isto nunca mais comeca? Estou congelado no meio de tanto mármore.
Nao volto a entrar num avião, está decidido. Desta vez, depois de uma hora no meio do nevoeiro e já quando se aproximava da pista, o piloto abortou a aterragem porque estava muito próximo do aviao da frente. "Próximo" disse ele. Mais uma velinha para o gajo que inventou o GPS.
Vasco da Gama chegou às Seychelles de barco, eu tambem chegarei.
Será que o Cardozo já marcou algum em Braga? Que doenca com a bola.
Ai estão eles de violino em riste. Vai comecar.
"Aos 4 minutos Salvio marca o primeiro", escreve o meu pai.
Agora sim, venha de lá o Vivaldi!
Veneza? Já cá deviam estar!


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

E se a TAP baixasse a tarifa para Cabo Verde e/ou para os Acores?

Sempre que comeco a preparar uma viagem sigo o filtro habitual: zona do globo com melhor temperatura no mês em questao, companhias que voam para lá, precos dos bilhetes, seguranca para o caso de ir sozinho e ponto de partida.
Raramente sei para onde vou e só depois de alguma pesquisa decido para onde vai a trouxa seguinte. Isto porque, para mim, nao existem sítios do mundo desinteressantes. O que existe, no máximo, é uma indisponibilidade momentânea, nada mais. A Síria nao será o poiso mais agradável neste momento, mas se-lo-á algures no tempo. É assim que penso e desta forma, evitando zonas temporariamente problemáticas, vou tracando os meus percursos.
Tendo em conta o meu terror em voar, o mundo para mim reduz-se aos pontos no mapa da Lufthansa, KLM, BA e TAP. Tenho mesmo que fazer aquele curso para perder esta pancada...
Sítios servidos pela Air PuxaAqui e outras que tal, terei que lá chegar de barco.
Depois de Veneza, Buenos Aires e Montevideo, gostava de dar um salto ao continente Africano e comecei a namorar as tarifas da TAP. Tento, por razoes óbvias, voar na TAP quando as partidas sao de Lisboa. Continuo, apesar de tudo, a ter algum orgulho na nossa companhia de bandeira.
Gostava de ir a Cabo Verde ou a Mocambique. E nao é de hoje.
Sempre que "volto" a estes destinos esbarro com os precos da TAP. No caso de Cabo Verde entao é quase escandaloso. Um voo de 4h (que a TAP opera em "regime de cartel" com a TACV) que custa tanto como uma deslocacao para o Japao.
A TAP tem algumas linhas que sao autênticas vacas leiteiras, Cabo Verde é uma delas.
O mesmo se aplica à ilha de Santa Maria nos Acores onde, por questoes familiares, gostava de ser mais assíduo. Neste caso os precos praticados sao os mesmos de uma viagem entre Lisboa e Atenas, conseguindo até a proeza de, em alguns dias, ser mais rápido chegar à Grécia.
Acabo sempre no mesmo sítio, eliminando os destinos "leiteiros" da TAP com o pensamento "alguém comecará a voar para lá".
Voltemos entao ao suspeito do costume em www.lufhtansa.com

sábado, 5 de janeiro de 2013

Israel, Palestina e Egipto
























"Com o amor nao me mataste o desejo, com o amor, com o teu primeiro beijo" canta o rapaz no meu ouvido. Todo cheio de 80's power o camarada do mar. Salta-me aos olhos que esta lista de musica feita em mil nove e noventa ja merece um novo toque. Uma Adele ou essas coisas que os putos ouvem agora.
Comecamos a descer para Telavive. Estou dentro do aviao e os ventos cruzados ja me fizeram jorrar um Nilo de cada mao, mas isso foi ha 3 cervejas atras. Agora ja nao ha vento. Acho eu.
Resolvi alterar os meus relatos na Estacao Central e escrever enquanto a coisa acontece. Fará isto sentido qdo publicar? Duvido. Escrever num telefone e bom? Nem por isso.
Olho em redor e vejo caracois acompanhados de generosos narizes. Pululam israelitas. Gosto de pensar que os mais velhos, que vao dentro do aviao c oculos escuros, sao reformados da Mossad.
Uuuuuui, o rapaz do leme esta a virar isto tudo e a senhora do cafe a chatear-me. Tenho q desligar.
Passo seguinte: alugar um carro e seguir para Jerusalem. Falamos mais tarde."

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Ora, a intencao era boa...escrever enquanto vou viajando. Na teoria funcionava bem, na prática nem por isso. Mal saí do aviao em Telavive nunca mais parei. Vocês que andaram na escola, nao conhecem nada que transforme um relato (voz) em texto? Isso é que me dava jeito.
Esta é uma daquelas viagens que nao me deixou indiferente. Duvido aliás que alguém o consiga nesta zona do planeta. Há um misto de emocoes associadas à situacao política e humana que ali se vive.
Eu, como qualquer pessoa, tenho uma opiniao sobre a divisao do território. E é com essa opiniao que vejo o que me rodeia. Tenho simpatias e preferências. Era claro para mim, antes de partir, que neste conflito há um invasor e um invadido. O tempo que por ali passei nao alterou a minha opiniao.
O percurso foi aquele que a imagem do Google ilustra:
 - Telavive, Jerusalem (Israel e enclave árabe), Belém (Palestina), Jericó (Palestina), Ein Bokek (Mar Morto - Israel), Masada (Mar Morto - Israel), Taba (Egipto), Telavive.
O território que hoje em dia é "dividido" entre Israel e a Palestina é sensivelmente do tamanho do Alentejo. A riqueza histórica deste pequeno espaco é tao grande que semanas nao chegariam para o visitar. Se a isso juntarmos 3 mares (Morto, Vermelho e Mediterrâneo), o Deserto e proximidade de Petra (Jordânia) e das pirâmides (Cairo), percebemos o potencial turístico da regiao.
Eu estive por ali apenas 5 dias e optei pelo que era possível.
Jerusalém é uma cidade absolutamente fascinante e única. A sua parte antiga, dividida entre Arménios, Judeus, Muculmanos e Cristaos, é de uma beleza e imponência indescritíveis.
Eu sou ateu. Respeito a crenca religiosa embora tenha alguma dificuldade com o fanatismo. Nao percorro as ruas da cidade com os olhos de um crente. A rua onde Jesus carregou a cruz, o monte onde foi crucificado, o templo onde o profeta ascendeu aos céus (para os muculmanos) que por acaso é o sítio mais sagrado para o judaísmo (onde Abraao ofereceu o seu filho em sacrifício) - a igreja/mesquita com a cúpula dourada, o muro das lamentacoes dos judeus e mais uma série de monumentos relevantes para as diversas religioes. Há um cruzamento de fé e uma divisao de espaco. Jerusalém é importante para todos os credos.
Fora da cidade velha (ou seja, da fortificacao) temos, a Oeste, a parte judaica e a Este, o enclave Árabe. Embora todos ali vivam, sao os Israelitas que controlam todas as áreas, resultado da anexacao de territórios (neste caso à Jordânia) depois da guerra Israelo-Árabe de 1967.
Aliás, no que toca a anexar territórios os Israelitas nao brincam em servico. Em 3 guerras triplicaram o seu tamanho. Tiraram uma parte do Sinai aos Egípcios e chegaram assim ao Mar Vermelho. Os Montes Golãs conquistados aos Sírios servem hoje para a producao de vinho. A parte Este de Jerusalém e territórios da Cisjordânia, foram cortados do mapa da Jordânia.
Os territórios da Palestina estao cercados. É o único país do mundo (a ONU já os reconheceu) onde os seus próprios habitantes vivem em campos de refugiados. Há uma humilhacao diária para quem tem que atravessar aqueles pontos de controle. E expliquem-me, porque eu nao percebo...como é que se pode negociar com quem faz de nossa casa uma prisao? A situacao de Ramallah, Belem ou outros territórios da Cisjordânia sao uma aberracao. Nao há outro nome. É uma aberracao imposta pela forca, com o alto patrocinio dos EUA e com o desprezo e falta de coragem da restante comunidade internacional.
Os Israelitas criaram 3 zonas (A, B e C) dentro da Cisjordânia. Em teoria uma controlada por cada estado (A e C) e outra (B), controlada pelos dois. Mas depois sao eles que definem as regras do jogo. Decidem em que situacoes de emergência pode o exército entrar na zona controlada pela Palestina, decidem quem é que do outro lado pode andar armado (só o exército, a polícia nao) e por aí fora. Ou seja, é uma autonomia forjada. Ao mesmo tempo vemos em cada esquina miudos israelitas fortemente armados que desconfiam de cada melro que passa. Vasculham caixotes, massacram com perguntas, estao num estado de permanente alerta. Nao conseguem sorrir. Nao conseguem ser simpáticos.
No lado palestino, apesar da miséria reinante e da prisao a céu aberto, há espaco para um sorriso e para três dedos de conversa. A história do David e Golias continua actual mas em sentido inverso. E a culpa é nossa.
Saí de Jerusalém com um nó na barriga. Aquelas imagens revoltam-me.
Seguiu-se Belém (Palestina) e o ponto alto da fé. Um guia Palestiniano levou-nos à Igreja da Natividade (local do nascimento de Jesus) e às grutas onde viviam os pastores que viram a estrela e o anjo Gabriel.
Enquanto ele explicava todas as passagens biblícas o meu pai perguntava-me: "mas será que ele acredita mesmo no que está a dizer?"
Eu percebo que tentem vender o "produto" da regiao mas tudo aquilo me passou ao lado. Estava um coreano a tirar uma fotografia ao sítio onde o pastor viu a estrela enquanto eu olhava para os telhados das casas. Interessava-me mais perceber para que serviam aqueles enormes reservatórios pretos que se amontoavam em cada prédio. A falta de água nesta zona deve ser o prato do dia.
A romaria para beijar o local do nascimento de Jesus foi mesmo a gota de água. Empurroes, lágrimas e criancas com menos de 2 meses deitadas no mesmo sítio. A fé que move as montanhas. Ultrapassa-me mas respeito.
Peguei no carro e atravessei a Cisjordânia numa estrada controlada por Israel. Autonomia? Pois sim...
O cenário que se seguiu foi o deserto com paragem para almoco em Jericó. Ao fim da tarde estava em Ein Bokek, no Mar Morto, rodeado por russos.
Afinal é mesmo verdade...nao dá para ir ao fundo! Que sensacao esquisita a de "nadar" naquele mar.
Tenho que reconhecer a inteligência do povo Israelita. Num mar onde nada cresce, eles conseguiram instalar uma zona industrial. Tal como no deserto que o envolve...estufas e producao agrícola a perder de vista. Entre calhaus e areia, conseguem produzir laranjas. Tiro-lhes o chapéu.
Mais deserto e 200 km de "sempre a direito" até o Mar Vermelho aparecer à nossa frente. Numa distância de 20 km tínhamos acesso a 3 países, todos partilhando o Golfo de Aqaba.
Eilat, o Algarve de Israel, foi o ponto de chegada. Daí atravessámos para o Egipto. Uma decisao de que me viria a arrepender amargamente.
3 horas foi o tempo que levei a percorrer 500 metros. Saltar de Israel para o Egipto, como viajante individual (sem a protecao das agencias de viagens ou dos grandes grupos organizados), por terra e com um carro alugado, é um pequeno inferno. Perdi a conta ao número de vezes que fui revistado, mostrei o passaporte ou respondi à mesma pergunta. Alguns funcionários complicaram a passagem, no lado egípcio, tentando abrir espaco para um suborno, outros, mais directos, foram ao cerne da questão com um "give me some money".
O Egipto, pelo menos na fronteira de Taba, ainda é terceiro mundo. Lamento Cleópatra.
Depois desta esfrega ainda passei por mais 3 pontos de controlo DENTRO do hotel. Percebo as razoes para a desconfianca (mais de 60 turistas morreram neste mesmo sítio com bombas plantadas por fanáticos islâmicos) mas depois de tanto tempo perdido, tudo me parecia um gigantesco erro.
O Mar Vermelho foi a terapia certa para esquecer este bocado da viagem. Aliás, mar claro e com 17 graus em Janeiro, cura-me de quase tudo.
O regresso foi uma pequena loucura de 24 horas e 5 países, até abracar o meu filho.
Licao para a próxima: tracar o percurso de forma a que a última noite seja próxima do aeroporto.
Enfim, vivendo e aprendendo.
Esta é, até ao momento, uma das viagens da minha vida.
Próxima paragem: Buenos Aires e Montevideo.